Para Além Do Fim Da Dublagem

Muito tem se falado, em tom de hecatombe, que a dublagem está perto do fim devido às recentes tecnologias que surgiram fazendo estripulias com vozes e rostos, prometendo que os atores originais “falem” as várias línguas estrangeiras dos países que importam os conteúdos audiovisuais. De fato, impressiona a precisão desses programas e aonde eles chegaram atualmente, causando um frisson no universo daqueles envolvidos de ponta a ponta no universo da dublagem.

Mas nem tanto ao mar nem tanto à terra. A questão não é tão simples. O pavor já se instala no entendimento ficcional que temos de “Inteligência Artificial”. O David de Michael Fassbender em “Alien: Covenant” solicitando “A Entrada Dos Deuses Em Valhala” de Richard Wagner pronto para destruir os colonos humanos ainda está longe de chegar, se é que vai chegar. Valdemar W. Setzer, Professor Titular Sênior do Departamento de Ciência e Computação da USP diz que

“…não se pode dizer que uma máquina aprende. Para ‘inteligência artificial’, uma denominação correta poderia ser ‘simulação de comportamentos humanos’… Para ‘aprendizagem de máquina’, poderia ser ‘programas adaptativos'”.

(Setzer, www.ime.usp.br/~vwsetzer)

E para Piaget, biólogo, psicólogo e epistemólogo suíço, considerado um dos pensadores mais importantes do século 20, “a inteligência é o que você usa quando não sabe o que fazer”. “Ele descobriu que os princípios da nossa lógica começam a se instalar antes da aquisição da linguagem, gerando-se através da atividade sensorial e motora em interação com o meio, especialmente com o meio sociocultural. Segundo a Teoria da Aprendizagem de Piaget, a aprendizagem é um processo que só tem sentido diante de situações de mudança. Por isso, aprender é, em parte, saber se adaptar a estas novidades”. (https://amenteemaravilhosa.com.br/piaget-teoria-aprendizagem/)

Ora, máquinas, sem exceções, precisam saber o que fazer. Elas são interpretadoras de códigos binários (zeros e uns). Ainda, segundo Setzer, o aprendizado de máquina “trata-se de uma técnica de dar a um programa uma enorme quantidade de conjuntos de dados de entrada e de saída; o programa então, em uma fase denominada de ‘treinamento’ (novamente uma denominação antropomórfica indevida, pois deveria ser aplicada apenas a seres humanos e a animais), calcula parâmetros para transformar um conjunto de dados de entrada em um conjunto de dados de saída correspondente, também fornecido ao programa. Posteriormente, depois de muitos casos desses, dá-se um novo conjunto de dados de entrada, obtendo-se então dados de saída que devem se aproximar o máximo possível do que seria esperado. Trata-se, portanto, de um problema de otimização matemática: diminuir o erro dos dados de saída em relação ao que seria de esperar.” (Setzer, www.ime.usp.br/~vwsetzer)

Ou seja, a aprendizagem de máquina é pura e simplesmente matemática. Quando o programa não sabe mais o que fazer, falta-lhe dados, que só são fornecidos com mais intervenção humana. Programas não têm os estímulos do meio sociocultural, a não ser que sejam alimentados por humanos via dados, o que impossibilita a criação de mais esquemas e mais aprendizado. A máquina não é inserida na cultura.

Mas e a dublagem nisso tudo? Por mais que questões técnicas como labial, isocronia e inflexões cheguem a um nível cuja ilusão consiga de fato enganar os espectadores, existe um sem número de fatores relevantes a serem considerados. Ora, a melodia de uma ironia ou um sarcasmo na fala de um brasileiro do Rio de Janeiro, por exemplo, é diferente daquela de um texano, ou de um inglês, mais ainda de um russo ou alemão. O humor é diferente mesmo dentro do nosso próprio país. A dublagem não é meramente a transposição textual lida de um determinado conjunto de frases. Daí a obrigatoriedade dos profissionais da área serem atores. O termo “versão brasileira” não é utilizado à toa. Por mais que um programa de computador consiga fazer o Jack Nicholson falar português automaticamente usando as próprias inflexões do ator, há de se causar estranheza as inflexões do português de um brasileiro em cima de alguém que, no original, esteja falando inglês americano. O buraco é mais embaixo.

Já na tradução para dublagem, a situação se complica e fica mais tensa ainda. A promessa é colocar a transcrição do texto original no programa e, “tcham”, o feitiço está feito. O buraco vai ficando cada vez mais lá embaixo. Dizem que os melhores programas de tradução automática da atualidade conseguem uma precisão de 90 por cento para as línguas mais fáceis, e o português nem está entre elas, embora também não esteja entre as mais difíceis. Só que tradução envolve escolhas, envolve repertório, envolve sensibilidade, a questão é semântica, não sintática. O tradutor precisa compreender os personagens, interpretá-los e, através da imersão, que é um dos fenômenos psicológicos da tradução para dublagem, remeter-se à sua bagagem de vida. Ele vai se lembrar do tiozão do clube de campo que falava e brincava usando determinadas expressões, da tia Zilda que fala assim ou assado, do amigo da adolescência, no boteco, que fazia todos rirem sem parar, da avó e seus ditados populares e de tudo o que já absorveu durante a vida até esse momento. O verdadeiro material do tradutor é esse caldo gigante de aprendizado, conhecimento e, principalmente, experiências. Uma tradução feita por determinado tradutor nunca, absolutamente nunca, vai ser igual à de outro tradutor, porque, de novo, envolve escolhas, subjetividades.

Um programa de tradução automática aprende, por exemplo, que “fuck” pode ir para “caralho” ou “cacete” ou “porra”, mas dependendo do contexto, do personagem e da expressão corporal do ator na cena, o tradutor pode escolher qualquer outra palavra. Não importa a quantidade de possibilidades que o programa tenha em sua tabela, ele não vai conseguir fazer uma escolha adequada, porque falta-lhe a condição humana, a inteligência de verdade, a capacidade de criar quando não sabemos o que fazer.

A preocupação real seria a da imposição dessas tecnologias pelos grandes canais de streaming, na intenção de redução de custos. O tradutor teria que se tornar um “adaptador”, consertando as escolhas mecânicas da tradução automática, mas todos sabemos da inviabilidade disso. Um tradutor profissional preferiria sempre começar do zero. Isso mexeria culturalmente com determinados países e seria um retrocesso sem precedentes para um arte que está sempre em evolução, que é a dublagem.

Portanto, caros colegas, tomem uma gelada, peçam um escondidinho de carne seca com cheddar banhado em Guinness e tranquilizem-se, porque a Inteligência Geral Artificial ainda é hipotética. E não se esqueçam, tradução é arte.

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